
Entre rotular uma pessoa de louco ou de normal, eu questiono: Quem é o louco? O louco? Mas o louco é passivo de ser excluído da sociedade, sedado, medicado, internado, escondido e até desaparecido. O louco é um introspecto dentro de sua loucura, mal sabe que é louco e, se souber que é louco, se tornará um louco. Ele, o louco, não pode cometer as loucuras que eu cometo, pois sou um Ser são, normal e aceito por todos, livre para viver um século, explodindo-me no meio da multidão, disparando em escolas, lançando aviões contra prédios, criando muros que separam pessoas em Israel, na fronteira do México e até nas favelas do Rio, quando a maior vitória do século foi a derrubada de um muro. Os loucos não sabem viver sem muros.
Quem é o são? É o que segue, como cordeiro, a cabeça fértil de ganhos dos engravatados de Wall Street, ou as mudanças radicais em governos e povos que se matam, destroem e consomem a própria sobrevivência? Quem é o louco? O louco é aquele que vê uma Etiópia por dia e se cala? Assiste sentado os fogos de artifícios em Copacabana e os fogos sobre Bagdá com a mesma expressão? Quem é o louco? Quem é o são? Aliás, o que vem a ser a sanidade? Uma regra para que os loucos possam viver sem medicamentos? Sanidade é derramar milhões em armas para matar dois mil, enquanto a fome causada pela falta dos mesmos milhões mata muito mais? Sanidade é por acaso um passaporte para que nós loucos, sejamos os sãos?
Isso é loucura. E somos todos loucos.
Você deve estar achando que eu sou louco, mas sou são. Os outros é que o são.
Nossa recomendação é ler Élie Wiesel, uma voz apaixonada pela defesa da memória, pela defesa da sanidade e expurgo da loucura que acomete a maioria de nós, esta loucura da vida. Por ter vivido loucamente um século de transformação dá ao autor a autorização para falar da sanidade. E ele o faz grandiosamente.
Élie Wiesel, Nobel da Paz de 1986, nos mostra em seu livro “Uma Vontade Louca de Dançar”, entre quatro paredes, entre dois personagens, um século de loucura. Um romance do século XX, em que uma psiquiatra aprofunda-se em suas próprias dúvidas para decifrar Doriel, um enigmático personagem que se pensa louco, e deseja encontrar sua loucura. Sua vivência com outros personagens, durante a vida, nos mostra as loucuras que fizemos e que ainda vamos fazer, enquanto, em um lapso de sanidade, o personagem por ter vivido a loucura dos outros, não sabe separar a sua própria loucura de sua sanidade. Que descobre, no final, os motivos que o fizeram achar-se louco. Quem é o louco?
Sobre Élie Wiesel
Judeu, nascido na Romênia e sobrevivente dos campos de concentração de Wauschwitz e Buchenwald, onde perdeu quase toda a família, foi libertado aos 16 anos pelas tropas aliadas. Depois da guerra, dedicou-se a difundir os horrores do Holocausto, e pelo conjunto de 57 livros, recebeu o Nobel da Paz em 1986, recebendo também o título de “Mensageiro da Humanidade” pelo Comite norueguês do Nobel.
UMA VONTADE LOUCA DE DANÇAR, Élie Wiesel. Rio de Janeiro, Bertrand, Brasil, 2008.















