|
Comprimido é o remédio
Não estranhe o título, é que, antes de mais nada, eu vou contar aqui uma historinha de terror, e como toda boa história, tem também o fundo musical que eu escolhi: o tema de Tubarão, por ter só duas notas, taam e taaamm, lembra-se do filme?
Então preste atenção, vai começar... taam, taaamm, taam, taaamm.
Ela acordou e já pegando o copo de água e foi bebendo seus remédios, primeiros os azuis, eram dois, depois o branco, um só, depois o Prozac que era azul e branco, bebeu toda a água e antes de colocar o copo sobre o criado, limpou, cuidadosamente, a borda com um lençinho, ela sofre de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), e durante toda a manhã, sob o efeito do remédio, cumpriu os seus afazeres, mas, no meio da tarde, se por ansiedade ou porque o remédio era falsificado, os sintomas da doença se manifestaram. Limpou toda a cozinha, três vezes; o banheiro só duas, porque a água acabou, e foi para o quarto, alisou cinco ou seis vezes os lençóis e andou em volta da cama alguns quilômetros com uma vassoura nas mãos, olhou para o alto do guarda roupas e viu a caixa. Taam, taaamm, foi em direção a ela, subiu em uma cadeira e com o lencinho, (outro, porque aquele ela já havia lavado), abriu lentamente a caixa, mas, sua obsessão não lhe permitiu continuar, muito pó, então pegou um lençol impecavelmente limpo, enrolou a caixa e levou para o quintal, colocou bem no meio, distante de tudo e voltou para a cozinha, pegou a caixa de fósforos, (com outro lencinho) e voltou para o quintal, ateou fogo no lençol que enrolava a caixa e a fumaça subia branca, limpa, imaculada, estéril, levando consigo certidões, inventários, cartas que falavam de outras terras, contavam casos como o falecimento do irmão mais velho que sofria de gota de sete dias. Levou também o nome dos convidados do casamento do tio, dos detalhes da festa, da “desafortunada” filha do irmão que havia engravidado e agora teria que casar “à força” com alguém que não era o pai legítimo, e muitas histórias, e muita lembrança, e muita experiência. Tudo virou fumaça. Agora conta para mim, você sentiu medo nesta historinha? Em que parte? Se for na parte em que ela pegou a caixa de fósforo, você é um historiador, um genealogista, está no seu sangue o medo de perder qualquer documento que te leve a descobrir o passado.
Você acha que esta historinha é ficção? Que nada, aconteceu mesmo, centenas de documentos, cartas e informações foram queimados, deixando um vazio de quase 150 anos da história de uma família. Agora você entendeu por que eu usei o tema de tubarão? Porque se perde um pedaço, assim como uma perna para o nosso corpo.
E os seus documentos, as cartas, as fotos, onde estão? Taam, taaamm, Taam, taaamm, Taam, taaamm. Rápido, afaste-os de alguém com TOC, (se for você, amarre-se), jogue fora todas as caixas de fósforos ou multiplique rapidamente o seu arquivo, copie-os e guarde-os em um local seguro.
Já esta na hora de você escanear todos eles, guardar em CDs, publicar na internet, ou seja, proteger e guardar em uma caixa mais segura.
Agora você, surfista, com medo de tubarão, vem contar para a gente se você conhece alguma história de terror, drama, comédia, com final feliz ou sem final feliz, onde documentos históricos tenham estado em risco e se foram salvos, ou perdidos, que tenham sido vítimas ou protagonistas.
Vou deixar em aberto, você conta como desejar. Eu acredito que vai aparecer muita história.
Só para encerrar: O MINISTÉRIO DA SAÚDE RECOMENDA, REMÉDIO PARA NEUROSE FAZ MAL PARA DOCUMENTOS HISTÓRICOS.
_________________ Walter Olivas .
|